15/04/2010 - Mercado: Reformas de estádios vão impulsionar consumo de estruturas

O mercado de siderurgia já começou a se preparar para uma nova onda de forte demanda por produtos para obras de construção civil no Brasil. Esse segmento, em especial, deve ampliar consideravelmente os investimentos nos próximos quatro anos, até o início da Copa do Mundo de 2014, segundo as siderúrgicas consultadas pelo Valor. A reforma de 12 estádios brasileiros e criação de novas arenas - dois estádios serão construídos a partir do zero - devem turbinar o consumo de estruturas de concreto armado - especialmente vergalhões e os chamados produtos ampliados, como telas soldadas e treliças. Além disso, nas construções em estrutura metálica, haverá uma demanda maior de perfis laminados, utilizados na montagem de grades e esquadrias de metal. Grande parte desse material será fornecida pelo próprio mercado doméstico, por siderúrgicas como Usiminas, Gerdau e CSN,  acreditam as companhias.

Pelos cálculos do setor, por conta do aquecimento no consumo até 2014, as empresas devem ampliar sua capacidade de produção. Apenas para os eventos da Copa do Mundo, dentro de quatro anos, e Jogos Olímpicos em 2016, o Instituto Aço Brasil estima um aumento de 5,8 milhões de toneladas no atual volume de produção, o que equivale a uma expansão de 13,8% da atual base produtiva do setor siderúrgico brasileiro - que registrava ao final de 2009 capacidade instalada total em 42 milhões de toneladas.

Apenas para a Copa, a previsão é de 4,5 milhões de toneladas de aço adicionais à capacidade atual do setor. É volume que deve atender as encomendas de empreiteiras como a Norberto Odebrecht e a Mendes Júnior, que devem reformar as atuais arenas. A Olimpíada de 2016 demandará 1,3 milhão de toneladas de aço. Para efeito de comparação, os projetos da Petrobras de óleo e gás vão exigir dois milhões de toneladas adicionais de aço durante o período de 2010 a 2016. Essa conta relacionada ao período da Copa, no entanto, pode crescer ainda mais. O Instituto Aço Brasil (antigo Instituto Brasileiro de Siderurgia) acredita que mais sete milhões de toneladas de aço devem ser produzidas por conta de novos projetos já aprovados pelas siderúrgicas, para o período de 2010 a 2014, no valor total de US$ 8,1 bilhões.

"Acreditamos que 100% das encomendas poderão ser atendidas pelas empresas brasileiras. Nós já temos capacidade fabril de sobra, mas vamos aumentá-la, porque a indústria quer atender plenamente o mercado local", diz Marco Polo de Mello Lopes, vice-presidente executivo do Instituto Aço Brasil. "No ano passado, cerca de 20,7 milhões de toneladas de aço do volume total produzido no Brasil foram destinadas ao mercado interno. É menos da metade da capacidade total de produção. Portanto, temos condições de atender as encomendas dos próximos anos", completa ele. A Gerdau concorda com essa avaliação.

"A capacidade instalada das empresas produtoras de aço no país soma mais que o dobro da demanda interna. No segmento de aços longos, a capacidade de produção existente do setor confere absoluta tranquilidade para atender à futura demanda", diz André Gerdau  Johannpeter, diretor-presidente da Gerdau. "No caso da nossa companhia, estamos com o parque fabril preparado para atender a evolução do consumo. 

E passamos a alocar equipes de trabalho especificamente para o acompanhamento dos projetos de construção e reforma para a Copa", completa ele.

A Gerdau informa que planeja investir R$ 9,5 bilhões entre os anos de 2010-2014 em suas operações, e desse total, cerca de 80% será direcionado para  as unidades no Brasil. "Esses investimentos, junto com a capacidade de produção já existente, garantem plenamente o atendimento até das mais otimistas previsões de demanda envolvendo os eventos de 2014 e 2016", afirma o executivo.

Na avaliação da Usiminas e da Gerdau, as principais aplicações do aço a ser comprado no Brasil estarão ligadas às obras civis. Nesse contexto, destacam-se os produtos para estruturas de concreto armado - especialmente vergalhões cortados e dobrados. Nessa família de vergalhões estão as barras de transferência, usadas na construção de pisos e pavimentos, os estribos para colunas e vigas, as treliças para a construção de lajes e a  ultrapassagem de vãos. Além disso, ainda devem ser fechadas encomendas de produtos em estrutura metálica, com a utilização dos perfis laminados, usados na montagem de grades e esquadrias de metal.

Em relação à importação de mercadorias, as companhias acreditam que ela possa ocorrer por razões pontuais ou estratégicas. E não pela existência de algum produto de relevância que não seja fabricado no país. "Estamos trabalhando para garantir a existência no Brasil do produto demandado pelas empresas. Se a importação acontecer, será por razões pontuais ou momentâneas, não relacionadas ao portfólio da indústria siderúrgica local", diz o vice-presidente de negócios da Usiminas, Sérgio Leite.

A Usiminas planeja entrar em todas as licitações de construção e reformas dos estádios brasileiros, em 12 cidades-sede, que devem receber os jogos da competição. Até agora, a siderúrgica participou da disputa pelo Verdão, de Cuiabá, que foi vencida pela Mendes Júnior, e começou a negociar com a Andrade Gutierrez o fornecimento das estruturas de aço do Vivaldão, estádio de Manaus. O plano já anunciado pela companhia prevê investimentos de US$ 14,1 bilhões até 2012 em ampliação da capacidade de produção de aço e mineração, em modernização das usinas, redução de custos e 
preservação ambiental.

"Por cerca de R$ 130 milhões, adquirimos em fevereiro a participação de 30% nas construtoras Codeme e Metform, que têm indústrias em Betim (MG) e  Taubaté (SP). São companhias especializadas em construções com estruturas metálicas e serão extremamente importantes nos negócios para a Copa", afirma Leite. Dona de metade do mercado nacional de aços planos, a capacidade de produção do grupo chega a mais de 8,5 milhões de toneladas ao ano. Desde o ano passado, ela tem investido no aumento da produção de produtos acabados, como chapas grossas, laminados a quente e  a frio e aços galvanizados.

A avaliação das empresas de que há capacidade para atender encomendas futuras se contrapõe a uma discussão em torno do aumento da importação de aço por diferentes indústrias.

Para os especialistas, o fato de a indústria siderúrgica local estar preparada não garante que as construtoras deixem de recorrer a material importado em certos casos. Principalmente, se ouve reajustes de preços considerados elevados pelos compradores. Em fevereiro, os fabricantes de máquinas agrícolas anunciaram a formação de um pool de indústrias para importar aço em conjunto, segundo a Câmara Setorial de Máquinas e Implementos (CSMIA), órgão que reúne 160 associados. Há menos de um ano, a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic) convocou seus associados a adquirirem vergalhões de aço do exterior por causa da alta do preço do produto no país.

 


Fonte: Valor
Seção: Construção civil
Publicação: 15/04/2010

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